Posts Tagged ‘amor’

Classificados

October 3, 2013

Agora que eu sou dessas que olham casas por aí, fui olhar o jornal de domingo. Imóvel vai, imóvel vem e ali, no meio da coluna do Prado, por um desses acasos sutis e maravilhosos, estava a casa onde cresci. Foi um susto. Primeiro, pelo inusitado de achar minha casa no único classificados que eu já li na vida. Segundo, pela frieza imobiliária da descrição, coitada.

O anúncio é exatamente assim:

CASA

Al. casa à R. Tal, número tal, c/var., sl, cp, 04qts (1suíte), bh, coz, quintal, lavand, DCE, etc.

Quando deveria ser assim:

CASA

Jardim na frente com pinheirinho de verdade, onde dá pra colocar pisca-pisca no Natal. Janelas grandes de madeira e sem grades. Quarto de brinquedos com piso geladinho ótimo pra deitar quando está quente. Terreiro de cimento verde nos fundos bom pra estender roupa de cama no varal, brincar de mãe-da-rua e andar (em círculos) de bicicleta e de patins. Suíte escondida dentro do armário dos seus pais. Bidês, em todos os banheiros.

❤ Saudade, casinha! Espero que os futuros inquilinos tenham cachorros e plantem mini-rosas no jardim.

Gente que inspira

March 14, 2013

Uma das minhas metas para 2013 é “saber quem são minhas referências”. Meu drama de não ter referências começou no fim do ano passado, quando uma repórter fofíssima me ligou pra escrever um mini-perfil. Entre questões como “com o que você trabalha” e “o que você gosta de fazer”, veio a fatídica “e quem são as pessoas que te inspiram?”. Pausa dramática ao telefone, branco total. Eu não sabia enumerar nenhuma pessoa que me inspira. COMO ASSIM, Brasil, ninguém me inspira? É muita pobreza de espírito.

 

Foi assim que começou minha jornada existencial work in progress em busca de inspirações, referências pessoais, gente que faz.  Jornada que você acompanha aqui, no Selvagem, em tempo real e com a exclusividade que nenhum pay-per-view pode proporcionar:

 

1. Lili

Lilimafalda

Depois que a Sasha me perguntou quem eram as pessoas que me inspiravam, eu só conseguia pensar na Lili – mas achei que ela ainda não era famosa o suficiente pro público da Gloss. A Lili foi da minha turma de mestrado (uma turminha mara, por sinal). Além de ser competente em absolutamente qualquer trabalho, a Lili é linda, sensata, entende as piadas, faz piadas melhores, é uma companhia incrível e me ensinou coisas muito importantes, como a importância de se avaliar as coisas em termos de processo – e não de resultado. Enfim, a Lili é uma dessas pessoas especiais, que o mundo tem muita sorte em ter dentro dele.

Inspire-se: a Lili é desse povo que recita Drummond pra crianças aleatórias de Diamantina!

2. Jean Willys

jan

Ele participou de um BBB. Ele GANHOU um BBB. Ele foi eleito deputado federal do estado do Rio, pelo PSOL. Ele milita pela causa LGBT e faz pronunciamentos super sensatos e bem elaborados. Ele enfrenta com muito orgulho, com muito amor, a bancada evangélica na Câmara. É muito improvável, gente. É muito necessário. É muito amor.

Inspire-se: Tapa na cara de Danilo Gentili & companhia!

3. Laerte

sonia

Pense num cartunista massa. Só por fazer quadrinhos ótimos, com um tipo de humor sutil e maravilhoso, o Laerte já poderia ser referência pra muita gente. Agora pense num cartunista massa, famoso e reconhecido, que decide, aos seus 40 e poucos anos, que é cross-dresser e passa a assumir a identidade de Sônia. É ousado, é revolucionário, é sucesso total. Chupa, matriz heteronormativa. Arrasou, Laerte!

Inspire-se: Laerte dando um banho de classe num jornalista bobão da Folha.

4. Merrill Garbus

images

Foi no ano passado que o Nuno me mostrou um dos clipes mais legais dos últimos tempos (esse aqui, ó). Depois de muito tempo fuçando pra saber quem era o GÊNIO por trás das crianças coreografadas e do conceito mara de maquiagem, descobri que (YES!) era uma gênia: essa moça, Merrill Garbus. Acontece que crianças e maquiagem eram só o começo. Merrill foi quem inventou essa banda maravilhosa chamada tUnE-yArDs (assim mesmo, em miguxês). Além de fazer letras absurdas e lindas, Merrill é desse povo que pega um sampler e uns pedais, coloca bateria, efeitos vocais bizarros, traz um baixista e um saxofonista e faz as músicas mais incríveis do mundo. Pra completar, ela tem um corte de cabelo lindo. Como não amar?

Inspire-se: Vídeo de um mini-show do tUnE-yArDs, impossível não querer ver um milhão de vezes.

Auto-ajuda rizomorfa

August 15, 2012

Seja rápido, mesmo parado! Linha de chance, jogo de cintura, linha de fuga. Nunca suscite um general em você! Nunca ideias justas, justo uma ideia. Tenha ideias curtas. Faça mapas, nunca fotos nem desenhos. Seja a Pantera cor-de-rosa e que vossos amores sejam como a vespa e a orquídea, o gato e o babuíno.

 

Devir animal

Uma despedida.

July 5, 2012

Meu avô fazia as unhas. Fico pensando nisso, “meu avô fazia as unhas”. Ele perdeu uma perna e fazia as unhas. Ele usava fralda geriátrica e fazia as unhas. Ele conversava sozinho no telefone e fazia as unhas. Não era só isso, claro. Ele sempre passava (muito) perfume e usava um anelão dourado no mindinho, mesmo quando estava no hospítal. Micro-gestos de vaidade, né. Pensar nisso é uma das coisas que mais me deixam triste, porque qualquer mini-vaidade é um sinal de que a pessoa ainda se importa em estar viva. Meu avô, aquele homão meio Antônio Fagundes, precursor dos genes barraqueiros da família, foi diminuindo com o tempo, até ficar bem magrinho e velhinho. De unha feita e anelão, claro. Mas tão magrinho…

Nunca fomos muito próximos, nós dois. Mas vou lembrar pra sempre que ele fazia as unhas.