Posts Tagged ‘animais domésticos’

A culpa, o inconsciente e a raposa

January 19, 2013

Acabei de acordar de um dos pesadelos mais absurdos, porém compreensíveis, dos últimos tempos. Eu estava dentro de um documento do Word, que tinha uma função “Joker” habilitada. É, Joker, aquele coringa do baralho. Era um coringa super do mal, meio Gato de Botas, meio raposa, que tinha o papel de fechar todas as portas, cercas e espaços vazios, pra que eu não pudesse voltar (nas páginas, sei lá). Corta para mim, dentro do documento. Fisicamente dentro – o documento era tipo uma trilha-labirinto, parecia ilustração de fábula. Encontrei o Amilcar, cachorro aqui de casa, e entendi que minha missão era salvá-lo, tirando ele de lá. Trilhas-labirinto são muito perigosas pra cachorros de apartamento, claro. Então só dava eu tentando de todo jeito voltar pro início do documento, com o Amilcar no colo (ele não é um cachorro muito bonzinho), enquanto copiava (em uma manobra corporal de Ctrl + C) uma citação que eu não podia esquecer. E o coringa/raposa/Gato de Botas lá, tentando fechar todas as cercas pra que eu não cumprisse minha missão. Acordei quando eu tentava loucamente desativar a função Joker (com o cão no colo e a citação na Área de Transferência), pensando quem tinha sido o imbecil que inventou isso.

Aí são quatro da manhã da vida-real, preciso retomar meu capítulo e o Amilcar está com dor de barriga, arrastando cocô mole sala afora.

Só queria compartilhar, obrigada.

Sobre cães e lágrimas

November 9, 2010

A categoria “gente que gosta de cachorro” não é coesa, nem uniforme. Mas numa escala que vai de comprar roupinha de batman a dar um sorrisinho quando vê um salsicha, posso atribuir essa etiqueta à maioria das pessoas que eu conheço. A mim, inclusive. Recentemente, resolvi que gosto dos cães pela falta de habilidade que eles têm em fingir. Não importa o quanto um cachorro tente ser dissimulado: se o bichinho fica feliz, o rabo denuncia. Impossível não se comover com um rabinho abanando, uma manifestação tão despretensiosa de contentamento. José diz que é carência. Eu digo que é sinceridade compulsória – e acho a coisa mais linda nessa história de ser cachorro.

Nesse parágrafo agora eu suspendo os cachorros e vou pra minha primeira sessão de análise: um desajeito completo misturado com a euforia juvenil que me consome quando eu faço as coisas pela primeira vez. Eu só tinha uma certeza quando pisei naquela sala de sofá, divã e cadeira. Queria não chorar mais. Ou pelo menos chorar como uma pessoa adulta, naquelas horas em que é socialmente normal sucumbir ao choro: filme bonito, despedida, enterro, tragédia. Sei que eu devo ter consumido uma caixa inteira de lenços de papel enquanto tentava explicar minha completa ausência de controle emocional. Estava obstinada: queria uma cura, um tratamento radical e definitivo.

Se quase um ano de sofá na quarta-feira teve algum resultado, foi me convencer que eu não preciso tanto assim tentar segurar o choro e dissimular meu estado de espírito. Pode ser conformismo, claro. Mas em uma chave de interpretação mais light, é só mais uma forma (meio bizarra, mas muito legítima) de lidar com o desespero – e com a emoção de forma geral. É o que eu resolvi adotar como jargão quando as pessoas se assustarem com minha choradeira. Tem gente que grita com os outros, tem gente que desenvolve doença de pele, tem gente que larga tudo e compra um helicóptero. Eu choro. É o meu rabinho balançando.

Menos, né, gente.