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Seja um motorista-humano, você também!

February 13, 2013

Um dos meus maiores traumas na vida foi fazer auto-escola, por diversos motivos (instrutor enrolado, eu enrolada, três reprovações no exame de direção, vencimento da pauta, novo instrutor ogro, etc). Até hoje me dá um frio na barriga quando eu vejo alguém penando pra fazer uma baliza em uma vaga do tamanho de um caminhão. Mas eu lembro com muito orgulho, com muito amor, de uma das coisas que eu queria aprender mais do que todas as outras: a não molhar os pedestres em dias de chuva. Mais do que bater o carro, mais do que a garagem lá de casa, mais do que segurar o trânsito do Elevado Niemeyer*, o que eu tinha mais medo na VIDA era de passar com o carro em uma poça e molhar as pessoas na rua.

Olha, eu aprendi e GENTE, é muito simples: está chovendo, logo, haverá poças. Há poças, logo, passe com seu carro bem devagarinho, porque qualquer terceira marcha é suficiente pra estragar o dia de alguém – que está a pé, molhado e injuriado o suficiente. É claro, é óbvio, é absurdo de tão fácil de perceber. Mesmo assim, os motoristas que eu conheço (e os que eu não conheço, porém amaldiçoo diariamente) continuam completamente insensíveis a isso. Outro dia, depois de ser atingida com mais umas 15 pessoas por sucessivas poças voadoras no ponto de ônibus, eu finalmente entendi que o problema do carro é que ele absorve a pessoa-humana dentro dele. Uma vez motorista, meu amigo, você some e o mundo passa a interagir com uma máquina sem sentimentos.

 

(Claro que o Pateta já tinha concluído isso há muito tempo, quando os desenhos ainda eram 2D)

 

Aí que eu percebi que todas as situações que eu amo no trânsito (eu sou dessas pessoas que faz listas, sabe?) são reflexos de que (ainda) existe vida atrás do volante. Tipo quando de repente chega uma ambulância e os carros têm que se virar pra achar um jeito dela passar. Quando rola aquela buzinadinha-amiga (pén-pén!) pra agradecer alguma coisa ou avisar que a porta está aberta. Ou na estrada, quando os caminhoneiros piscam os faróis de um jeito super maroto, pra deixar o carro de trás ultrapassar. Tudo isso pra mim (além de ser muito amor <3) é prova de que é possível vencer os impulsos assassinos que vêm junto com a sua carteira de motorista e interagir de pessoa pra pessoa, como se não houvesse a mediação de nenhuma máquina mortífera.

Depois de tirar essas brilhantes conclusões sobre a vida no trânsito, toda vez que eu estou dirigindo e tenho vontade de matar aquela tartaruga fazendo uma baliza na minha frente ou os pedestres que me atropelam no centro da cidade, eu mentalizo: “pessoa-humana, pessoa-humana” e me torno uma motorista melhor. Se você veio parar nesse blog por acaso, tente você também. Sem nem perceber, você vai se pegar reduzindo a marcha pra passar nas poças e (uau!) deixando alguém atravessar naquela esquina que nem faixa de pedestre tem.

* Pra quem não sabe, já tem algum tempo que o Elevado Castelo Branco, em Belo Horizonte, foi rebatizado “Elevado Niemeyer”.