Posts Tagged ‘escancarando a vida pessoal na internet’

Bobalegre

January 31, 2013

Quando eu nasci, um anjo torto

desses que vivem nas sombras

disse: Vai, Carol, ser bocó na vida!

Aí eu fui, né, fazer o quê.

Mas toda vez que eu consigo quebrar o devir-bocoió maligno eu fico toda-toda. É a segunda vez em 2013 (ô ano que promete!) que eu me faço ouvir em alguma situação pública em que a aprovação alheia é muito importante pra mim. E é a segunda vez que rola demais! EBA! Agora tô aqui, 1h da manhã, eufórica, me sentindo assim muito mulher.

Chupa, anjo féladaputa.

Chupa, anjo féladaputa.

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Uma despedida.

July 5, 2012

Meu avô fazia as unhas. Fico pensando nisso, “meu avô fazia as unhas”. Ele perdeu uma perna e fazia as unhas. Ele usava fralda geriátrica e fazia as unhas. Ele conversava sozinho no telefone e fazia as unhas. Não era só isso, claro. Ele sempre passava (muito) perfume e usava um anelão dourado no mindinho, mesmo quando estava no hospítal. Micro-gestos de vaidade, né. Pensar nisso é uma das coisas que mais me deixam triste, porque qualquer mini-vaidade é um sinal de que a pessoa ainda se importa em estar viva. Meu avô, aquele homão meio Antônio Fagundes, precursor dos genes barraqueiros da família, foi diminuindo com o tempo, até ficar bem magrinho e velhinho. De unha feita e anelão, claro. Mas tão magrinho…

Nunca fomos muito próximos, nós dois. Mas vou lembrar pra sempre que ele fazia as unhas.

Sobre o meu pai

December 15, 2010

Eu não conheço meu pai. Na verdade, não é que eu nunca tenha conhecido. Meu pai começou a sair de casa quando eu tinha 11 anos, levando o acústico dos Titãs e metade dos outros discos da estante. Terminou quando eu estava com 16, sem nem ter visto meu cabelo curto. E nunca mais apareceu. Não sei se eu mesma apaguei as memórias, ou se nunca parei pra conhecer meu pai direito. Mas me lembro muito pouco dele. Hoje, lembrei que ele tinha uma coleção de chaveiros. Às vezes, ele tirava a coleção do maleiro, e eu e meu irmão ficávamos olhando eles brilharem. Forçando um pouco, lembro que ele fazia macarrão no domingo, às vezes. E quando tinha churrasco no terreiro, ficava muito bêbado e chutava o ar. Meu pai trabalhava no PABX. Nunca soube o que isso queria dizer, mas tinha alguma coisa a ver com telefones e computadores. Quando eu ia pra lá, ficava jogando Prince of Persia. Eu fico brava quando me dizem que eu pareço com meu pai. Primeiro, é claro, porque minha mãe é linda – e ele, não. E isso só me lembra o quanto eu puxei do lado errado da família as pernas gordas, os olhos caídos e as alergias. Segundo, porque tenho mágoa, mesmo. O que eu retive da figura dele foi um dente amarelo, boa dose de mau-caratismo e o exemplo perfeito de uma crise de meia idade.

Sobre cães e lágrimas

November 9, 2010

A categoria “gente que gosta de cachorro” não é coesa, nem uniforme. Mas numa escala que vai de comprar roupinha de batman a dar um sorrisinho quando vê um salsicha, posso atribuir essa etiqueta à maioria das pessoas que eu conheço. A mim, inclusive. Recentemente, resolvi que gosto dos cães pela falta de habilidade que eles têm em fingir. Não importa o quanto um cachorro tente ser dissimulado: se o bichinho fica feliz, o rabo denuncia. Impossível não se comover com um rabinho abanando, uma manifestação tão despretensiosa de contentamento. José diz que é carência. Eu digo que é sinceridade compulsória – e acho a coisa mais linda nessa história de ser cachorro.

Nesse parágrafo agora eu suspendo os cachorros e vou pra minha primeira sessão de análise: um desajeito completo misturado com a euforia juvenil que me consome quando eu faço as coisas pela primeira vez. Eu só tinha uma certeza quando pisei naquela sala de sofá, divã e cadeira. Queria não chorar mais. Ou pelo menos chorar como uma pessoa adulta, naquelas horas em que é socialmente normal sucumbir ao choro: filme bonito, despedida, enterro, tragédia. Sei que eu devo ter consumido uma caixa inteira de lenços de papel enquanto tentava explicar minha completa ausência de controle emocional. Estava obstinada: queria uma cura, um tratamento radical e definitivo.

Se quase um ano de sofá na quarta-feira teve algum resultado, foi me convencer que eu não preciso tanto assim tentar segurar o choro e dissimular meu estado de espírito. Pode ser conformismo, claro. Mas em uma chave de interpretação mais light, é só mais uma forma (meio bizarra, mas muito legítima) de lidar com o desespero – e com a emoção de forma geral. É o que eu resolvi adotar como jargão quando as pessoas se assustarem com minha choradeira. Tem gente que grita com os outros, tem gente que desenvolve doença de pele, tem gente que larga tudo e compra um helicóptero. Eu choro. É o meu rabinho balançando.

Menos, né, gente.